Oppenheimer - Análise (Filme)
- Mel

- 29 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 1 de mai. de 2024
Título: Oppenheimer
Diretor: Christopher Nolan
Gênero: Drama, Ficção Histórica
Pontuação: ☆ ☆ ☆ ☆ ☆ (5/5)
Sinopse: O filme baseado no livro "Prometeu Americano" conta a história da vida do físico teórico Julius Robert Oppenheimer, conhecido como o "pai da bomba atômica". Durante o filme seguimos a trajetória do físico durante o Projeto Manhattan, com algumas cenas no futuro, mostrando sua audiência com os diretores da Comissão de Energia Atômica (AEC), e também da negação de Lewis Strauss pelo senado.
Oppenheimer é apresentado com resistência de diversos lados, por sua associação à ideais comunistas, assim como parentes e pessoas próximas associadas ao partido; porém se mantém firme dizendo que não simpatiza com o comunismo, apenas se alimenta de diversas fontes para formar uma opinião própria.

"Porque se limitar a um único dogma?"
O filme também mostra a vida pessoal de Oppenheimer, que é conhecido por ser mulherengo e arrogante, o que deixa afetar sua vida profissional.
Com diversos personagens históricos importantes e um elenco de peso, o filme destaca o surgimento da bomba atômica, e tudo o que à acompanha: avanços científicos e tecnológicos, conflitos de moralidade e o início da Guerra Fria.
“Prometeu roubou o fogo dos deuses e o deu ao homem. Por isso ele foi acorrentado a uma rocha e torturado por toda a eternidade.”
Análise: Oppenheimer foram 3 horas que passaram como um estalar de dedos, e ao mesmo tempo como um bilhão de anos. Isso, é claro, é sinal de uma obra excelente.
O filme é um retrato majoritariamente fiel à história real.
Oppenheimer era absolutamente genial quando se tratava de teoria, mas inapto à física experimentalista; apesar de não ser o cientista mais inteligente em relação aos que o cercavam, seu carisma certamente o tornava ideal para liderança.
Apesar de seu trabalho no projeto Manhattan e ter sido apontado como o pai da bomba atômica pela revista Times, após a vitória dos aliados contra a Alemanha, Oppenheimer começou a apresentar oposição à criação de uma bomba de hidrogênio (exponencialmente mais perigosa do que a bomba atômica), além de fazer apelos por um controle internacional de armamentos de destruição em massa.
Isso fez com que ele sofresse ameaças e chantagens de pessoas poderosas, que chegaram até mesmo a acusá-lo de ser um espião soviético.
O que isso faz de Oppenheimer então? Com os poderosos o acusando de ser um espião de vermelho, e seus apoiadores o colocando em um pedestal como um mártir da paz; o filme faz um trabalho excepcional em mostrar o quão complexo Oppenheimer era; uma alma angustiada, apaixonado pela ciência, e que sofre com o remorso pelo resultado de seu trabalho.
“Eles não terão medo até que entendam. E eles não vão entender até que tenham usado.”
Agora eu gostaria de falar um pouco sobre uma cena logo no início do filme, onde o jovem Oppenheimer se encontra pela primeira vez com Niels Bohr:

O diálogo se segue dessa maneira:
[Niels]: Como é a sua Matemática?
[Patrick Blackett]: Não boa o suficiente para o físico que ele deseja ser.
[Niels]: Álgebra é como uma tablatura musical.
O importante não é "você consegue ler a musica?" e sim "você consegue ouvi-la?"
Você consegue ouvir a musica, Robert?
[Oppenheimer]: Sim. Eu consigo.
A relação entre musica e matemática sempre foi algo que me fascinou; mas o que realmente me encanta nessa cena, é a sua alusão ao "piado" dos buracos negros:
"Esse "piado" é o que ouvimos de dois buracos negros que se chocaram a cerca de um bilhão de anos-luz da Terra. O tom aumenta à medida que eles se aproximam em espiral e para abruptamente quando se fundem." (trecho de um artigo da Scientific American).
Existe um conceito filosófico chamado Musica Universalis, que se trata das proporções no movimento de corpos celestiais. A teoria se iniciou na época de Pitágoras, e foi então melhor desenvolvida por Kepler. Kepler não acreditava que essa "musica" poderia ser ouvida, mas sim sentida pela alma.
A astrônoma cega Wanda Díaz-Merced "sonificou" os eventos mais explosivos do universo: os explosões de raios gama. Ao ouvir, em vez de olhar para os dados, ela fez uma descoberta crítica e mudou o campo da astronomia. Aqui você pode ouvir esses sons.
Mas, voltando ao filme, um pouco antes desta cena, Niels faz menção de comer uma maçã que está na mesa de Blackett; uma maçã que foi envenenada com cianeto por Oppenheimer, como uma vingança pelo seu professor o ter impedido de ir à palestra de Blackett (fato que ocorreu na vida real); e enquanto Niels correr esse risco pode ter sido apenas dramatização, a maçã envenenada faz alusão também à outro intelectual cuja história se desenvolvia ao mesmo tempo que o projeto Manhattan: Alan Turing.
"Uma maçã envenenada é, claro, um elemento central dos contos de fadas, usada pela rainha má para fazer Branca de Neve adormecer. Mas ela também desempenhou um papel trágico na vida de outro cientista real, Alan Turing. Enquanto Oppenheimer desenvolvia a bomba atômica, Turing ajudava a decodificar transmissões alemãs na Grã-Bretanha. Processado por sua homossexualidade, Turing morreu em 1952 de envenenamento por cianeto, com uma maçã meio comida encontrada ao lado de seu corpo. Mas isso é assunto para outro filme." (trecho de um artigo da Vanity Fair)
Perdão, eu continuo fugindo do filme, mas essa é a beleza da História, diversos acontecimentos infinitamente importantes dividem seus lugares no tempo.
Mas além de toda a ciência envolvida, o filme também é profundamente sentimental, mergulhando no significado e na complexidade do ser humano.
“Pessoas horríveis e egoístas não sabem que são pessoas horríveis e egoístas.”
Os dilemas morais pelos quais Oppenheimer passa em diversos momentos de sua vida, sendo em seu casamento, filhos e trabalho, ajudam a mostrar a humanidade por trás do gênio.
“Agora eu me tornei a morte, o destruidor de mundos.”
Oppenheimer se sentia miserável em Cambridge, onde sentia que seu potencial estava sendo desperdiçado em laboratórios vazios de liberdade; e eventualmente se encontrou como diretor de um dos (se não O) projeto mais importante da história mundial; porém não estava contente. No livro Prometeu Americano, há uma passagem onde ele fala sobre sua opinião de si mesmo: "O que sinto por mim mesmo sempre foi um descontentamento extremo. Eu tenho pouca sensibilidade aos seres humanos, e pouca humildade em face das realidades deste mundo."
E era evidente o quanto ele valorizava a física mais do que aos amigos e família.
Os demais personagens não são desprovidos de profundidade, e o filme nos apresenta as diversas motivações de uma gama de figuras históricas que tiveram tanta importância nesse momento.
Personagem Favorito: General Leslie Groves
Conclusão: Se você, assim como eu, nutre uma paixão pela história da humanidade, e uma atração por física, química e astronomia (mesmo não tendo talento para as tais), esse filme é uma experiência de explodir a mente (desculpa, eu precisava fazer esse trocadilho). Com sua precisão histórica, Oppenheimer é mais do que uma obra-prima, mas também uma entrada para um mundo histórico e científico.
Citações Favoritas: "Você acha que alguém em Hiroshima ou Nagasaki se importa com quem construiu a bomba? Eles se importam com quem a lançou. Fui eu. Hiroshima não é sobre você." (Essa citação do Presidente Truman acompanhada pelo impecável visual do presidente esticando um lenço para Oppenheimer, sugerindo que o físico "lave suas mãos" desse acontecimento, assim como Pôncio Pilatos faz na bíblia.)

(Após essa cena, Truman também se refere à Oppenheimer como um "bebê chorão"; essa fala é historicamente correta, dado que Truman diz isso sobre Oppenheimer no ano seguinte, em uma carta para Dean Acheson. - A fala e a oferta do lenço também se relacionam, como se o presidente esperasse que o físico derramasse lágrimas no momento.)
“Você não pode cometer o pecado e depois pedir a todos nós que sintamos pena de você quando houver consequências”
“Você não pode levantar a pedra sem estar pronto para a cobra que será revelada.”




Filmão!