Detroit: Become Human - Resenha (Jogo)
- Mel

- 6 de jun. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 22 de jul. de 2025
Título: Detroit: Become Human
Desenvolvedor: Quantic Dream
Gênero: Ação e Aventura, Filme Interativo, Ficção Científica
Pontuação: ☆ ☆ ☆ ☆ ☆ (5/5)
Sinopse: Em um futuro próximo, onde androides fazem parte do cotidiano humano, Detroit: Become Human mergulha o jogador em uma narrativa interativa intensa, explorando temas como liberdade, empatia e o que nos torna verdadeiramente humanos. Acompanhando três protagonistas distintos, suas escolhas moldam o rumo da história em um mundo à beira da mudança. Cada decisão importa, e o futuro está em suas mãos.

Resenha: Eu costumava ter uma lista bem definida de jogos favoritos desde a adolescência (Bioshock, Fallout New Vegas, Life is Strange), e era muito difícil pra um novo jogo se tornar tão importante pra mim, mas Detroit definitivamente superou todas as minhas expectativas, e hoje posso dizer que é sim um dos meus favoritos.
Eu me conectei muito profundamente com esse jogo, tanto pelo desenvolvimento dos personagens, quanto pelo contexto que, atualmente com a disseminação de Inteligências Artificiais pelo mundo, é mais relevante do que nunca.
(SPOILERS)
História: Eu devo começar admitindo que só zerei o jogo uma vez, tendo um final que me deixou muito satisfeita, e receosa de fazer outros finais (tem uns 40!) que me deixariam triste, já que o meu final foi positivo para todos os personagens, e eu ficaria chateada em ver eles sofrendo. :‹
Enfim, a história de DBH é separada em três protagonistas, Connor, Kara e Markus, e cada um tem uma profundidade imensa e impactante.
(Lembrando que tudo o que eu falar a partir daqui é de acordo com a MINHA run do jogo, das escolhas que eu fiz e consequências que sofri, não vou entrar muito no mérito dos outros finais, pois não joguei eles.)
Na minha opinião, cada personagem reflete uma perspectiva diferente. A história do Connor é sobre autodescoberta e dilemas morais; a do Markus é sobre lutar pelos seus companheiros, não importa de onde você venha; já a da Kara é sobre amor altruísta e o verdadeiro significado de ser uma família.
Embora a trajetória do Markus seja a que mais influencia a trama como um todo, quem mais me tocou foi o Connor, especialmente com a dificuldade que ele tem em lidar com a imprevisibilidade dos outros, isso realmente ressoa comigo.

💠 Começando pelo meu favorito, Connor, o androide enviado pela Cyberlife:
Eu admito que já tinha uma pré-disposição de favoritismo pela história do Connor, já que adoro qualquer dinâmica "grumpy x sunshine*", como o Norman e o Carter de Heavy Rain, (que definitivamente foram inspiração pro Connor e Hank), ou até outros personagens mais populares, como Sherlock e Watson da BBC, Mulder e Scully, Joel e Ellie, Levi e Hange, e muitos outros.
Falando de Joel e Ellie, pelo menos na minha gameplay o relacionamento entre o Connor e o Hank se desenvolveu de uma maneira que o Hank começou a ver o Connor como um filho, o que me emocionou muito considerando que o Hank odiava androides por associar eles com a morte de seu filho humano, Cole. (Assim como o Joel se conectou com a Ellie após a morte de sua filha)
(Falando em comparações, o Hank é a cara do Haymitch de Jogos Vorazes, né? Cabelo comprido, alcóolatra, relutantemente responsável por alguém mais jovem e de personalidade complicada...)

Apesar da jornada como desviantes de Kara e Markus ser muito mais "óbvia", eu acho interessante como o Connor já estava no caminho de se desviar desde o começo, onde temos a opção de salvar um peixe do aquário quebrado no apartamento, ação que não tem nenhuma relação com a missão do androide, e é tomada simplesmente por um momento de empatia (uma emoção humana).
Em diversos outros momentos temos pequenas ações que vão escalando até o momento de desvio completo do personagem.
O que eu acho mais interessante é a relutância de Connor em se desviar; enquanto os outros protagonistas se entregam com facilidade à liberdade, Connor se apega ao seu sistema, o que torna a sua aceitação pela liberdade muito mais satisfatória, principalmente considerando que Hank o empurrava nessa direção ao longo do jogo,
incentivando o amigo (ou filho de consideração) a "se tornar humano".

💠 O enredo do Markus é o que realmente move toda a história de DBH; sua busca por liberdade, se tornando o líder de Jericho e representante dos desviantes é cheia de golpes à política do mundo real, tanto na época do jogo, mas principalmente agora.
"E lembre-se, isso não é apenas um jogo, isso é o nosso futuro."
Eu escolhi fazer a rota pacifista com ele, pois apesar de eu entender que dificilmente uma revolução pacifista teria algum efeito na vida real, o grande receio dos humanos em relação aos androides era a violência, e o melhor jeito de mostrar que eles não são assim, e que apenas querem ser livres, na minha opinião, é pelas escolhas pacifistas.

É aqui que entra a minha única crítica ao jogo, em relação à North. Nada contra ela, ela é uma personagem complexa e bem desenvolvida, mas o romance com ela não faz o >menor< sentido na rota pacifista. Ela desaprova e critica todas as escolhas do Markus, com a setinha de relacionamento sempre caindo, e de repente o status deles muda para "amantes"? Na rota pacifista faria muito mais sentido o romance ser com o Josh, ou ainda com o Simon, que estavam sempre a favor das escolhas do Markus.
De qualquer forma, o enredo do Markus é muito tocante, e bate de frente com diversos problemas reais, e é muito gratificante ver o impacto que as escolhas tem no universo, seja a libertação de mais androides até a opinião pública sobre eles, que apoia a liberdade e pressiona o governo a um cessar fogo.
Durante um de seus discursos, Markus diz aos outros desviantes: "Assim como vocês, eu também era um escravo." E eu vi muitas pessoas criticando essa fala, dizendo que, como o "dono" dele era uma boa pessoa e o tratava bem, ele não teria o direito de dizer isso; e isso é um argumento completamente absurdo, pois na vida real, durante a abolição da escravatura negra, alguns donos de escravos usavam justamente do argumento "mas eu sempre tratei eles bem" para justificar a posse de seres humanos como objetos.
Sim, o Markus era muito bem tratado e tinha uma ótima relação com o Carl, até mesmo voltando para visitar ele antes da Batalha de Detroit, onde ambos tem uma conversa muito carinhosa e Carl diz para Markus que o considera filho dele; mas esse afeto só é válido após a libertação de Markus, quando ele não tem mais obrigação de servir ao Carl, e escolhe se aconselhar com ele, por ser um humano em quem ele confia.

💠 A história da Kara é a mais intimista das três, não envolvendo o governo, revoluções ou grandes investigações, apenas um pequeno núcleo familiar buscando paz e segurança; embora não tenha um impacto tão grande no mundo do jogo, ainda é uma história marcante e MUITO emocionante.
Por mais que eu soubesse desde o começo que a Alice também era uma androide, (ela é igual a criança da primeira missão do Connor, e quando estamos limpando a casa dela com a Kara, encontramos uma revista sobre crianças androides e uma foto da família, onde a menininha tem cabelos loiros, diferente de Alice - e sim, não é possível ler a revista no momento, mas só de ver a capa de relance já fica claro o seu contexto.) e eu acredito que a Kara também já sabia, mas estava em negação, eu ainda acho linda a maneira como as duas encontram exatamente tudo o que elas precisam uma na outra.

Novamente eu vi críticas dizendo que o impacto seria maior se a Alice fosse de fato humana, mas eu discordo; Alice ser um androide é extremamente importante para a história, pois é nela que vemos como os desviantes são sim tão humanos quanto nós, e merecem a mesma liberdade, afeto e direito de formar uma família.
A Alice É uma garotinha como todas as outras, mesmo sendo um androide, e é isso o que torna a mensagem do jogo e toda a luta do Markus tão relevante.
💠 As três histórias se entrelaçam perfeitamente em diversos momentos do jogo, mostrando como as nossas escolhas não afetam somente as nossas vidas, mas tem também um impacto considerável na vida de todos os outros.
Jogabilidade: A questão da jogabilidade é definitivamente uma versão melhorada de Heavy Rain (da mesma desenvolvedora), com comandos simples e sequências de ação em quick time events**. Eu pessoalmente gosto bastante desse estilo de gameplay, onde você ainda sente sua presença no jogo, mas tem um foco mais direto na narrativa do que na ação.
Gráficos: Em 2018 a maioria dos jogos já tinha gráficos bons, porém Detroit está muito acima dos padrões, sendo um jogo visualmente impressionante ainda nos dias de hoje.
Prós:
História extremamente bem desenvolvida
Sistema de escolhas e consequências complexo
Gráficos impressionantes
Personagens carismáticos
Gameplay satisfatória
Contras:
Romance forçado entre o Markus e a North na rota pacifista
Algumas escolhas são "enganosas", com a opção de palavra parecendo algo positivo, mas o diálogo do personagem sendo algo completamente diferente do esperado. (Eu reiniciei algumas partes do jogo pra impedir o Connor de falar ABSURDOS pro Hank, mesmo a palavrinha de escolha parecendo algo inofensivo.)
Personagem Favorito: Connor

Conclusão: Detroit: Become Human é o jogo mais complexo e profundo que eu conheço, ele trata de assuntos relevantes em todos os sentidos, seja sobre tecnologia e inteligência artificial, causas sociais, políticas e direitos humanos, até temas como família, luto, amor e "o que significa ser humano".
Esse tipo de ficção científica sempre me afeta de uma maneira muito pessoal, como alguém que sempre teve dificuldade de se encaixar com as outras pessoas; androides, replicantes, robôs e alienígenas costumam trazer alegorias que batem muito perto de casa pra mim.
Esse é um daqueles jogos que devem ser considerados "essenciais" de se jogar, e, se possível, mais de uma vez (eu ainda estou devendo minha segunda run). Ele tem uma importância gigantesca tanto na indústria de games, quanto como um clássico moderno, que inspirou tantas outras obras e abriu discussões pertinentes sobre o mundo real e a nova era de tecnologia.


*grumpy x sunshine: é a dinâmica entre alguém ranzinza e alguém radiante, onde o contraste gera conexões profundas e afetuosas.
**quick time events: (QTEs) são momentos em jogos em que o jogador precisa pressionar botões específicos rapidamente para realizar uma ação ou evitar um perigo — geralmente durante cenas cinemáticas ou momentos intensos.



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