Bunny - Análise
- Mel

- 3 de jun. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2024
Título: Bunny
Autor: Mona Awad
Gênero: Humor Ácido, Ficção
Pontuação: ☆ ☆ ☆ ☆ ☆ (4/5)
Sinopse: Um romance sombrio e surreal que mistura horror e humor para contar a história de Samantha Heather Mackey, uma estudante de escrita criativa em uma prestigiosa universidade de Nova Inglaterra. Samantha se sente deslocada entre suas colegas de classe, um grupo unido de mulheres ricas e mimadas que se chamam carinhosamente de "Bunnies".

Embora despreze o grupo inicialmente, Samantha é inesperadamente convidada para um de seus encontros privados e logo se vê imersa em seu mundo bizarro e perturbador. À medida que ela se aproxima das Bunnies, Samantha começa a perceber que suas práticas estranhas e rituais secretos têm implicações sombrias e grotescas.
O livro explora temas como solidão, identidade, e a pressão social, enquanto mergulha profundamente na psicologia da protagonista. À medida que a linha entre realidade e fantasia se dissolve, Samantha é forçada a confrontar seus próprios medos e desejos sombrios.
Resenha: Esse foi um dos livros que eu mais demorei pra terminar. Eu comecei em 03 de Abril, e finalizei em 30 de Maio. Dito isso, foi um livro muito bom, se não ótimo.
A questão é que ele não é necessariamente uma leitura pesada ou difícil, porém a história se assenta na boca do estômago, e às vezes são necessários alguns dias antes de começar o próximo capítulo.
A protagonista, Samantha, apesar de relativamente carismática, não é uma personagem muito "ativa", no sentido em que ela não move a trama, e sim as coisas acontecem ao redor dela.
Minha primeira impressão do livro, baseado nos primeiros capítulos, era de que Samantha era a típica protagonista que "não é como as outras garotas", e teria uma jornada de aceitação, percebendo que as outras meninas na verdade gostariam de ser amigas dela. E eu estava parcialmente certa. A grande surpresa foi onde eu errei,

O objetivo das Bunnies é sim deixar a Samantha feliz e mais confiante em sua escrita, porém "felicidade" no mundo delas é um certo tipo de coisa que alguém como Samantha não consegue alcançar sem ser esvaziada e lavada cerebralmente primeiro.
Isso significa esquecer Ava, sua melhor amiga, e entrar em um estado de "transe", em um grupo que opera como uma espécie de culto.
Esse culto é sobre permitir seus desejos mais superficiais e indulgentes, e isso não é totalmente ruim. Na verdade, é um impulso bom que vem de querer libertar a si mesma e umas as outras da vergonha. Samantha anseia por validação e companhia e isso também não é uma coisa ruim, mas isso a transforma em alguém que aceita atos que a repugnam fundamentalmente para sentir-se valorizada.
E é nesse ponto que a história sai de um drama universitário para uma ficção maluca com traços de Alice no País das Maravilhas e Frankenstein.
As atividades das Bunnies consistem em ler seus trabalhos em voz alta, criar drinks personalizados, e assassinar coelhos para transformá-los em híbridos humanos na busca de um namorado perfeito.

Eu gosto muito de dinâmicas de terror onde um protagonista bem-intencionado com desejos e falhas humanas normais é atraído por um vilão (ou vilões) que permite esses desejos até que o protagonista não consiga mais distinguir entre o que quer e o que está simplesmente disposto a suportar para obter essa validação superficial.
Inicialmente, Samantha não acredita ser capaz de produzir um híbrido, e isso a chateia, até o momento em que ela consegue; não com um coelho, como as outras, mas com um cervo.
Seu híbrido é distintamente mais humano do que os criados pelas Bunnies, que geralmente sofrem de má-formação e tem personalidades simplistas, sendo capazes apenas de seguir um roteiro.
O híbrido de Samanthan, Max, é sua própria pessoa, e isso assusta Sam, fazendo ela acordar para o mundo real, e buscar solucionar esse problema, voltando a se aproximar de Ava.
Essa dinâmica é muito paralela com o que ocorre em Heathers, sendo Samantha um espelho de Veronica, as Bunnies sendo as Heathers, e Max sendo JD.

O grande conflito final ocorre após as Bunnies assassinarem Ava, mostrando para Sam que sua melhor amiga (e por quem Sam e Max eram apaixonados), era um híbrido esse tempo todo, criada por Sam a partir de um cisne e uma solidão desesperadora,
Com seus corações partidos, Sam e Max buscam vingança, encontrada no sacrifício de Max pelas mãos de Sam, destruindo o "namorado perfeito" das Bunnies.
Bunny é uma sátira sobre um arquétipo comum de mulheres na literatura, mostrando a hipocrisia e insanidade dessas personagens ricas e pseudo-intelectuais que são inocentes demais (são mulheres adultas) para esse mundo cheiro de perigos (pessoas pobres), onde elas apenas querem criar algo belo (mutilando animais).

A escrita em si é extremamente vívida e visceral, a história tem um tom intelectual sem precisar apelar para "palavras difíceis" que muitas vezes afastam leitores menos experientes.
Minha única crítica seria talvez que a história fica um tanto confusa na metade, e poderia ter sido mais fácil de digerir. Mas talvez esse seja exatamente o ponto.
Personagem Favorito: Jonah (Apesar de aparecer pouco, eu gosto de como ele é um amigo genuíno para Samantha, e ajuda ela a se firmar na realidade).
Conclusão: É um livro excelente, mas não é para qualquer um; eu sinto que ele apela para um público muito específico, tão nichado que é difícil até mesmo de definir. O que eu posso dizer é que se você gosta de Heathers, A História Secreta ou Frankenstein, muito possivelmente você vá gostar de Bunny também.
Citações Favoritas: "Ela me olha como se eu fosse sua criança deficiente favorita."
"Sua beleza é sutil e labiríntica, como uma frase de Proust."
"-Isso nos faz sentir como Deus. Não, não podemos ir tão longe. Na verdade, nós tememos à Deus agora, se ele estiver por aí.
-Ela, Bunny. Se ela estiver por aí."
"Um livro deve ser como um machado. Para o mar congelado abaixo de nós."

(Créditos da Imagem: @octobrreads)
(Gifs ao longo do texto foram tirados dos vídeo-clipes do álbum K-12 da Melanie Martinez e do filme Heathers)



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